Saímos cedo, pelas 9 horas estamos na estrada, direitos a um posto de abastecimento, onde curiosamente só trabalham raparigas. As bombas não têm sentido de abastecimento, as motos vêm de todos os lados e o que consegue furar abastece primeiro. Vamos fazer os cerca de 80 km até Kochi, visitar a cidade. Levámos três horas a chegar lá e fomos bem depressa.
Conduzir a uma velocidade de 60 km/hora é uma aventura, mais complicada que evitar os carrinhos de choque numa feira. A 40 km/hora é conduzir a uma velocidade bem rápida nestas estradas estreitas e movimentadas.
Não existem sinais de trânsito e se existem são apenas para decorar a estrada. Os piscas são rectangulozinhos coloridos para adornar os camiões e os autocarros, não há regras de trânsito, mas consegui ver uma meia dúzia de motos a levantar o braço para mudar de direcção. Até fiquei espantada. A buzina é a rainha da estrada, a buzina é sinal de ultrapassagem, a buzina é sinal de que estamos aqui. Uns 40 km após estarmos na estrada, a minha buzina ... avariou. De repente senti-me completamente invisível, desprotegida, fiquei com medo. Não conseguia ultrapassar pois ninguém dava por mim, nem o barulho mecânico do motor da Royal era suficiente para avisar os calmíssimos transeuntes do meio da estrada que eu ia passar. Encostei logo e esperei pelo mecânico. Fiz-lhe sinal de kaput pi-piiiii. Ele entendeu e ficou preocupado. Desligou fios, ligou fios, deu umas cacetadas na máquina e buzina de novo. Suspirei de alívio. Estava pronta para seguir viagem.
Conduzir pela esquerda é curioso. Ainda não percebi se é mesmo pela esquerda que se conduz na Índia, pois todas as partes da estrada são utilizáveis, com maior destaque para a faixa do meio, aquela linha intermitente ou contínua que mais parece um indicador de caminho para os condutores. As bermas também são uma via de deslocação, curiosamente pela direita, andamos pela esquerda mas com carros e motos e bicicletas pela nossa direita e pela nossa esquerda e de frente, de todos os lados. Fiquei a saber que numa estrada estreita na Índia cabem dois rickshaws, uma moto Royal e ainda um peão impávido e sereno.
Parece uma chuva de meteoritos, os carros, os camiões, os rickshaws, as motos, as bicicletas e os peões calmamente no meio de estrada, passam por mim, vertiginosamente, não que se ultrapassem os 40 km/hora mas pela quantidade do movimento à nossa volta.
Os indianos vivem a duas velocidades, com muita calma e com muitíssima calma. Os primeiros são os stressados, raros mas que se notam logo, são os que se desviam na estrada. Todos os outros são muitíssimo calmos, tão calmos que nem ouvem as buzinas, não querem saber, vão passando para o outro lado da estrada, param e olham-nos e seguem então ainda mais calmamente.
O trânsito vem de todos os lados, numa velocidade vertiginosa, os que vêem de frente são os mais perigosos. Autocarros sem vidros e cheios de pessoas ultrapassam camiões, sempre a buzinar, rickshaws ultrapassam rickshaws e carros, sempre a buzinar, aparece aquilo tudo de frente e nem sabemos para onde nos desviarmos. Não nos desviamos, buzinamos também.
Andámos por estradas secundárias e por estradas rurais, estreitas e com buracos, com manchas de areia a saltar das bermas, com filas de raparigas de saias de pregas violeta escuro e camisas aos quadrados, em grupos a sair das escolas, caminhando pela faixa de rodagem, sorrindo e acenando meio envergonhadas e divertidas. As crianças também acenam aqueles fatos esquisitos e capacetes curiosos; devem ser loucos em andar por aqui tão vestidos com este calor.
A paisagem é fabulosa, palmeiras e palmeiras, árvores densas, vacas e cabras. Muita água, rios e lagos. A estrada até Kochi vai sempre junto à costa, passamos por pequenas aldeias de pescadores que pescam com umas redes gigantes, suspensas por um intrincado mecanismo feito com troncos de árvores que baixam até à água e uns minutos depois levantam com peixes a saltar.
Há pequenas vendas ao longo da estrada, onde vendem bananas, especiarias, frutos secos, bolachas, brinquedos, biscoitos, lenços e roupas. Parámos numa, queria comprar umas bolachas para ir trincando ao longo do dia. Todos os pacotes estavam fora de prazo, alguns eram de 1999. Custam 7 rupias (15 cêntimos). Disse ao dono da loja, que não, não queria, disse-me que fazia desconto, vendia por metade do preço. Acabei por comprar um pacote de banana frita, tal e qual as nossas batatas fritas de tão fininhas que eram.
Chegados aos limites da cidade de Kochi, era hora de almoço. Num restaurante à beira da estrada, com uma esplanada no primeiro andar, sentamo-nos e bebemos uma dúzia de garrafas de água. O calor é muito, a humidade ainda maior. Estamos pegajosos, molhados, cansados mas com os olhos brilhantes e ar entusiasmado desta primeira lição de condução na Índia. A comida soube-nos a manjar dos deuses, não era picante, tinha sabores fortes e estranhos. Arroz branco, legumes e um caldo de peixe que o Marcelino gabou ser uma carne muito bem cozinhada.
Deixámos por ali as motos e apanhámos dois rickshaws até ao centro da cidade. Mais uma aventura vertiginosa por um emaranhado de rickshaws e motos, razias e tangentes milimétricas. Andámos pelo bairro judeu, ruas e ruas cheias de lojas de roupa, artesanato, velharias. Os preços não são baratos, pinta de turista paga mais.
O regresso, a meio da tarde foi mais fresco, já mais descontraído, já mais habituados ao frenesim das estradas da Índia. A meio caminho do hotel, parámos num casebre escuro, sujo mas fresco, onde provámos o famoso “Massala Tchai”, um chá típico indiano, que leva leite e especiarias. Feito por uma indiana que tinha uma espécie de cozinha, juntou umas ervas já misturadas dentro de um boião de metal, leite e chá preto, passou a mistura de copo em copo até fazer espuma e serviu em copos de galão. Era saboroso, estava a escaldar, foi fantástico!
Domingo, 7 de Março de 2010
Tenho sono. Estou moída. Três aviões e 24h depois chegámos ao destino. Mal se abriu a porta do avião o calor entrou, a humidade colou-se ao corpo, o cheiro despertou os sentidos.
Estivemos em Mombai (Bombaim) umas boas horas para fazer o transfer para Kochi, num aeroporto velho e esburacado, com corredores que cheiram a mofo e carpetes do século passado. Mas o sistema de controlo de polícia é dos mais avançados do mundo, tão tecnológico que tive de passar o controlo, descalça, porque as botas fizeram apitar o detector de metais. Até os parafusos do ombro do João Casaca fizeram disparar os alarmes e as luzinhas todas; o coitado do João ali no meio com a polícia toda a olhar, só se ouviam apitos.
Cansada de uma noite dentro de um avião cheio, com o ar condicionado gelado, passageiros a ressonar e crianças a chorar, não preguei olho. Adormeci no aeroporto de Mombai, enquanto esperava o último avião, para me esquecer do estômago que reclamava o almoço. Chegámos a Kochi ao meio da tarde, com um calor sufocante. Três táxis levaram-nos até ao hotel, vertiginosamente, por uma suposta auto-estrada onde centenas de motos com famílias inteiras cruzam em todos os sentidos, veículos de todo o tipo nos fazem razias milimétricas. O condutor do nosso táxi nem pestaneja, apita e segue. Está contente porque hoje é Domingo e há pouco trânsito.
Foto de António Perdigão
O Hotel é de um Hungaro, o Alfred, nascido na Transilvânia, olho azul brilhante, anda sempre descalço e com um pano da loiça pendurado no cinto. Deu-nos as boas-vindas efusivamente, “estão à vontade, aqui é tudo família”. Mas nesta família o chuveiro apenas pinga umas poucas gotas até que o empregado indiano vá abanar a mangueira. Há uma ventoinha gigante no tecto do quarto, que faz um barulho de motor de barco; há um ar condicionado que apenas funcionou depois de pedir uma dúzia de vezes as pilhas para o comando. O Alfred foi tirar as pilhas do comando do quarto do João e do Emídio que passaram as primeiras horas da noite a suar até que vieram pedir o meu comando para conseguir ligar o ar condicionado deles.
No átrio há uma pequena piscina com água azul forte, uma relva rala e muitas palmeiras. O jantar foi delicioso: arroz branco, legumes e uma outra coisa que não sei o que era, mas que sabe muito bem.
Lá fora, no estacionamento estão as oito motos Royal Enfield, alinhadinhas, reluzentes, umas pretas outras cromadas, à nossa espera para ir para a estrada. Como alugamos muitas motos, a empresa deu-nos um mecânico e um carro de apoio e ainda temos um guia que conhece as estradinhas secundárias todas que nos vão levar até Goa.
Foto de Rui Marcelino
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